Gisela era uma moça quase senhora que sabia que tinha uma grande limitação: seu corpo era pequeno pro seu coração. Seu coração não cabia direito no espaço da caixa torácica, vivia apertado e muito, mas muito dolorido. Não havia espaço para bater e, quando batia, batia demais, ou de menos, porque o desconforto do pequeno espaço era constante. Até que Gisela decidiu colocar o coração na cabeça, para ver se ele se aquietava ou se conseguia se virar bem. O coração batia lá, e batia com força, com vida, e feliz, pois estava ao lado do cérebro, que o acompanhava sempre que não estava muito ocupado se concentrando em outras coisas. O coração e cérebro viraram amigos, eram uma tremenda dupla. Mas quando o coração sentia alguma dor, ou alegria, o cérebro fazia questão de querer sentir também. E ele se esforçava, mas não sentia nada. Ele só compreendia o sentimento. Sabia que era alegria, sabia o porquê, sabia que aquilo deveria durar mais tempo porque fazia bem para o corpo. A mesma coisa de outros sentimentos. Alguns eram difíceis de compreender, o cérebro ficava perdido. "Por que diabos Gisela está de novo com esse sentimento esquisito?", pensava. E perguntava ao seu bom e velho amigo, o coração, que respondia com gentileza: "Não faço ideia, cérebro, é sua função compreender. A minha é só sentir". Nisso, o cérebro começou a tentar compreender e explicar para si mesmo todo e qualquer sentimento de Gisela. E isso a tranquilizava, o coração batia mais sereno, mais tranquilo cada vez que o cérebro compreendia uma emoção. O poder do pensamento! - pensou o cérebro, se gabando muito do êxito de suas ações pensantes. Mas o coração, ah, se tornava cada vez maior para o espaço que ali estava, e ele não compreendia o porquê. "Coração, o que você está sentindo?". "Estou apertado de novo", dizia, "Sinto um alívio cada vez que você me explica o que sinto, mas continuo me sentindo muito apertado aqui. Acho que não há mais espaço para mim nesse corpo". Nisso, o coração decidiu sair, se livrar do corpo que parecia já tão, tão apertado pro seu tamanho. Ele seguiu sozinho, pulsante, pulsando, acreditando que, sem o cérebro, poderia viver mais. E assim o fez, até seu último tudum, muito bem batido.
aquarela
quarta-feira, 23 de julho de 2025
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
corujas
A partir desse dia, nunca mais vi a segunda coruja. Assim como eu, a única coruja seguia por lá todos os dias, ainda. Até que eu também parei de estar ali. Não sei se ela ainda se encontra por lá, talvez tenha voado pra longe, também.
domingo, 16 de junho de 2024
reflexões
Às vezes a vida nos convida a sentar e a escrever. É o que decidi fazer hoje. Eu sei que a maior das lições da vida é aprendermos a estar no presente, e a aproveitar esse presente. Acho que tenho o maior dos privilégios, na verdade, que é muitas vezes ter que lidar com perdas. Assim, aprendo a me manter centrada, no presente, no instante. Que passa tão rápido. Mas que deixa tanta coisa boa. Ou não, também. Mas deixa algo. E quando esse algo se transforma em vontade de viver? De mudar? De se engrandecer? É assim que tenho me sentido. Tem momentos que o presente corrói, mas corrói também lembrar do passado, que tanto doeu. Ou que tanto foi bom, e que não existe mais. A vida sabe que eu sei, às duras e leves penas, que tudo termina (será meu plutão conjunção com ascendente escorpião?). Um dia também terminaremos. Mas o presente tem sido generoso comigo. Muito generoso. Ele termina, no presente do indicativo, mas tem algo que fica. Tem algo que vai ficar, no futuro. E tem algo que ficará, também, no pretérito perfeito. E que perfeito. Admito que, de certa forma, cansa viver tantas e tantas perdas em pouco tempo. E espero que, em algum momento, isso possa cessar pra que eu possa, enfim, viver a vida com mais leveza, pelo menos. Mas viver é bom. Obrigada, vida. Obrigada. Te amo hoje e sempre, no presente, no passado, e sei que no futuro. Porque o que eu amo já faz parte de quem eu sou.
sexta-feira, 11 de agosto de 2023
Com COVID mas cantando
quarta-feira, 5 de julho de 2023
monstrinhos
Puxar uma cadeira extra
Pedir mais uma cervejinha
rio do meu coração
Há uma correnteza
Que avança.
O rio, que uma vez esteve cheio de peixes
e água límpida estará
Daqui a alguns quilômetros,
Ou a algumas horas,
Mais escuro, sem vida.
Meu coração se divide em rios
Que cheios de amor,
De tristeza,
De esperança,
De memórias,
Se entrelaçam.
Se encontram,
E desaguam.
Como duas grandes correntezas.
O fluxo, contínuo
Segue toda a vida
Assim sendo, misturando as águas.
Se dividindo
Misturando
Até o fim dos tempos.
terça-feira, 16 de agosto de 2022
jupiteriano
Aqui é referente mesmo a Júpiter. Planeta do júbilo, da leveza, da prosperidade.
Você é como Júpiter. Aliás, ascendente e mercúrio em Sagitário, és filho dele e maior amante da natureza. Com a sensilidade e profundidade de um bom escorpiano.
E eu aqui, cada dia mais encantada por tudo que você traz. Talvez vivendo ainda uma fantasia, essa mesma que Júpiter pode vir a representar. Mas o centauro, com sua flecha, aponta para horizontes limpos, de harmonia e prosperidade. Te aceito como és, te vejo como és. Dessa forma, espero construir um mundo mais bonito contigo, cheio de luz e amor. É isso. Você é meu Júpiter. Espero poder ser seu Sol.