Gisela era uma moça quase senhora que sabia que tinha uma grande limitação: seu corpo era pequeno pro seu coração. Seu coração não cabia direito no espaço da caixa torácica, vivia apertado e muito, mas muito dolorido. Não havia espaço para bater e, quando batia, batia demais, ou de menos, porque o desconforto do pequeno espaço era constante. Até que Gisela decidiu colocar o coração na cabeça, para ver se ele se aquietava ou se conseguia se virar bem. O coração batia lá, e batia com força, com vida, e feliz, pois estava ao lado do cérebro, que o acompanhava sempre que não estava muito ocupado se concentrando em outras coisas. O coração e cérebro viraram amigos, eram uma tremenda dupla. Mas quando o coração sentia alguma dor, ou alegria, o cérebro fazia questão de querer sentir também. E ele se esforçava, mas não sentia nada. Ele só compreendia o sentimento. Sabia que era alegria, sabia o porquê, sabia que aquilo deveria durar mais tempo porque fazia bem para o corpo. A mesma coisa de outros sentimentos. Alguns eram difíceis de compreender, o cérebro ficava perdido. "Por que diabos Gisela está de novo com esse sentimento esquisito?", pensava. E perguntava ao seu bom e velho amigo, o coração, que respondia com gentileza: "Não faço ideia, cérebro, é sua função compreender. A minha é só sentir". Nisso, o cérebro começou a tentar compreender e explicar para si mesmo todo e qualquer sentimento de Gisela. E isso a tranquilizava, o coração batia mais sereno, mais tranquilo cada vez que o cérebro compreendia uma emoção. O poder do pensamento! - pensou o cérebro, se gabando muito do êxito de suas ações pensantes. Mas o coração, ah, se tornava cada vez maior para o espaço que ali estava, e ele não compreendia o porquê. "Coração, o que você está sentindo?". "Estou apertado de novo", dizia, "Sinto um alívio cada vez que você me explica o que sinto, mas continuo me sentindo muito apertado aqui. Acho que não há mais espaço para mim nesse corpo". Nisso, o coração decidiu sair, se livrar do corpo que parecia já tão, tão apertado pro seu tamanho. Ele seguiu sozinho, pulsante, pulsando, acreditando que, sem o cérebro, poderia viver mais. E assim o fez, até seu último tudum, muito bem batido.
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