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quarta-feira, 23 de julho de 2025

A dor que se pensa

Gisela era uma moça quase senhora que sabia que tinha uma grande limitação: seu corpo era pequeno pro seu coração. Seu coração não cabia direito no espaço da caixa torácica, vivia apertado e muito, mas muito dolorido. Não havia espaço para bater e, quando batia, batia demais, ou de menos, porque o desconforto do pequeno espaço era constante. Até que Gisela decidiu colocar o coração na cabeça, para ver se ele se aquietava ou se conseguia se virar bem. O coração batia lá, e batia com força, com vida, e feliz, pois estava ao lado do cérebro, que o acompanhava sempre que não estava muito ocupado se concentrando em outras coisas. O coração e cérebro viraram amigos, eram uma tremenda dupla. Mas quando o coração sentia alguma dor, ou alegria, o cérebro fazia questão de querer sentir também. E ele se esforçava, mas não sentia nada. Ele só compreendia o sentimento. Sabia que era alegria, sabia o porquê, sabia que aquilo deveria durar mais tempo porque fazia bem para o corpo. A mesma coisa de outros sentimentos. Alguns eram difíceis de compreender, o cérebro ficava perdido. "Por que diabos Gisela está de novo com esse sentimento esquisito?", pensava. E perguntava ao seu bom e velho amigo, o coração, que respondia com gentileza: "Não faço ideia, cérebro, é sua função compreender. A minha é só sentir". Nisso, o cérebro começou a tentar compreender e explicar para si mesmo todo e qualquer sentimento de Gisela. E isso a tranquilizava, o coração batia mais sereno, mais tranquilo cada vez que o cérebro compreendia uma emoção. O poder do pensamento! - pensou o cérebro, se gabando muito do êxito de suas ações pensantes. Mas o coração, ah, se tornava cada vez maior para o espaço que ali estava, e ele não compreendia o porquê. "Coração, o que você está sentindo?". "Estou apertado de novo", dizia, "Sinto um alívio cada vez que você me explica o que sinto, mas continuo me sentindo muito apertado aqui. Acho que não há mais espaço para mim nesse corpo". Nisso, o coração decidiu sair, se livrar do corpo que parecia já tão, tão apertado pro seu tamanho. Ele seguiu sozinho, pulsante, pulsando, acreditando que, sem o cérebro, poderia viver mais. E assim o fez, até seu último tudum, muito bem batido.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

corujas

Todos os dias em que eu passava pela rodovia SP 215, sentido Descalvado/Porto Ferreira, eu via uma linda corujinha, dessas buraqueiras, sentada na placa que indicava a direção de Porto. Impreterivelmente, às 6h40 da manhã, ela estava lá, admirando o nascer do sol e a vista montanhosa e verdejante. De certa forma, os dias ficavam mais aconchegantes com a presença da coruja, pois, assim como eu, ela tinha o  destino de estar no mesmo lugar e horário todos os dias. Nós pertencíamos a uma mesma lógica, e nos conectávamos.
Certo momento, minha vida mudou. Meu coração se encheu de alegria por ter esbarrado no amor e na parceria. Nesse momento, outra corujinha começou a aparecer e, juntas, elas formavam um par de corujas na placa. Ela não estava mais sozinha, estava agora acompanhada e talvez sua rotina estivesse menos solitária. Todos os dias, às 6h40, lá estavam as duas corujas sentadas olhando para o horizonte. Foram quase três meses em que, todos os dias, eu falava bom dia às corujas queridas, e meu coração também comemorava.
Até que, certo dia, minha parceria terminou. Parece ficção, eu sei, mas uma das corujas simplesmente não estava mais ali. Só havia uma, novamente. Pensei que ainda estivéssemos conectadas nisso de destino, não era possível. Admirava a corujinha que ainda permanecia firme e forte ali, todas as manhãs, talvez para proteger seu ninho, o qual eu não tinha percebido, ou simplesmente para seguir o fluxo da vida natural. E assim ela esteve.
Certo dia de agosto, a segunda corujinha reapareceu. Ela estava, dessa vez, sentada em uma placa do outro lado da rodovia. E a corujinha da placa de Porto Ferreira permanecia ali, ainda. As duas corujas se entreolhavam distantes, talvez fosse algum tipo de despedida de corujas, não sei. Foi aí que me lembrei: aquele era o dia em que ele se mudaria para Portugal. Para outro lado do mundo, além do oceano. Meu coração estremeceu, eu senti saudade, como se também tivesse me conectado a ele pelo pensamento. Acredito nisso de conexão por pensamento, que fisga os sentimentos do coração. Mais uma vez totalmente me identificava com as corujas. Estávamos mesmo conectadas. 
A partir desse dia, nunca mais vi a segunda coruja. Assim como eu, a única coruja seguia por lá todos os dias, ainda. Até que eu também parei de estar ali. Não sei se ela ainda se encontra por lá, talvez tenha voado pra longe, também. 

sábado, 1 de março de 2014

Solidificada

A solidão sempre esteve presente nos momentos em que me pegava distraída. De início não gostava e achava que sua existência era algo ruim. Incomodava-me também com sua maneira arrogante e decidida de se aproximar, quase que impondo seus modos sobre os meus. Mas aprendi a aceitar e há tempos nosso relacionamento se tornou até que confortável. Ela costuma bater na porta sem avisar previamente que viria, entra algumas vezes sem minha permissão e fica eternamente nas salas do meu consciente, quase que tomando conta dos meus desejos mais profundos e anseios emocionais. Chega a ser irritante, mas com o tempo me acostumei bem.
Recentemente ela se afastou de mim e admito que senti falta de sua presença marcante, não sabendo o que fazer para substituía-la. Quando me vi com ele, ela, enciumada, se escondeu no mais profundo do meu corredor do consciente, quase na ala do imperceptível. Me esqueci dela por um tempo, por horas, dias e até mesmo meses.
Há duas semanas ela voltou, bateu novamente à minha porta, encabulada e cabisbaixa, perguntando se podia entrar. Eu relutei dessa vez, afinal, que tipo de relacionamento é esse que, depois de tanto tempo presente, decide sumir e voltar quase que sem explicações, satisfações ou então um arrependimento. Mas abri as portas mais uma vez. Ela entrou, sentou no
sofá e debochou da minha cara, dizendo que sempre esteve à espreita para voltar a me conquistar e disse que já sabia que conseguiria. Convencida.
Arrependi-me mesmo por algumas horas por tê-la deixado entrar, mas agora me (re)acostumei com sua irritante presença.
Bem-vinda de volta, solidão.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

o homem mais triste

Você, entre todos os homens os quais me aproximei, é o mais triste de todos. 

Encara a vida difícil que tem como algo muito simples. "Todos dizem que minha vida é trágica", me disse logo no primeiro encontro. Estranhei, afinal, quem lida com a tristeza de forma tão tranquila e direta a uma desconhecida? Ele conta os tão terríveis causos como se contasse sua rotina. A tristeza é parte de sua rotina, não a estranha nem questiona. 
"Não sei se consigo escrever assim como você", disse sobre meus contos. Ele, que tanto gosta de histórias e literatura, não consegue transformar em uma narrativa coerente o que se passa em sua cabeça. "Você não conseguiria dar coesão nem coerência a um texto, não é?", perguntei a ele. "Isso mesmo". A minha teoria estava certa...
Gosta de mostrar os livros que havia comprado, gosta de contar algumas coisas que havia lido. Isso eu gostava nele...
Gaba-se quando se vê como louco; ele não só não esconde a loucura como faz questão de mostrá-la a todos. Orgulha-se em ser louco, em vestir essa máscara. Não pensa nas consequências de sua loucura, tampouco sabe lidar com o que se passa em sua cabeça. Ele é um louco que jamais procurará ser menos louco. Afinal, ser louco é tudo que ele tem, é tudo que ele é. Se ele perder isso, quem passará a ser?
Entre os momentos que vivi ao seu lado, o seu passado é tão vivo que aparece a cada minuto de conversa com ele. "Eu quase morri várias vezes", ele disse. "Pois então, você é praticamente um super-homem", eu brincava, querendo trazê-lo ao presente. Mas ele não consegue permanecer no presente por muito tempo; sua memória triste é tão viva, senão mais viva que qualquer acontecimento feliz (ou atual) de sua vida. Triste.
Consegui trazê-lo ao presente por alguns dias, talvez. Os dias os quais ele disse que não parou de pensar em mim; os quais a gente riu e fez piadas juntos. Os quais me senti gostando de um moço triste que havia, pela única vez, mostrado um lado o qual não esparava nem conhecia. Mas não durou por muito tempo. A tristeza venceu mais uma vez e voltou a contar histórias do seu passado sombrio. Uma vida difícil. 
Mas nada é mais difícil do que sucumbir à tristeza e à memória dessa forma. Você é o homem mais triste que eu já beijei.  


segunda-feira, 30 de julho de 2012

nu

as mãos frias, a perna direita inquieta batia no chão repetidamente. bons pensamentos, pois sabia que teria que manter a calma e a argumentação.
estava com a roupa de casa, a qual não sairia na rua. banhou-se, se enxugou e foi se trocar.
"qual roupa eu ponho afinal?". ela sabia que aquela seria uma conversa importante e que poderia resolver muita coisa, mas não sairia de casa. talvez fosse a última vez que o visse, talvez a última que falasse com ele. ela tinha aquela certeza incerta de que as coisas terminariam.
"invista, invisto. visto."
- sabe, menina? aquele verde bonito realça seus olhos! - havia dito sua colega de quarto
"por que não?". colocou uma roupa bonita, passou perfume e até um pouco de rímel. um brilho nos lábios completou sua esperança tão cabisbaixa e ainda desencorajada.
ela sabia que, ao expor-se, despir-se de sua racionalidade exacerbada, ao mostrar à flor de sua pele branca que o amava, seus argumentos acabariam. o sentimento se tornaria sua principal razão.
e investia, sem perder a fé e (racionalmente) preparada para a mágoa...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

(sem direito a título)

Apesar de certas coisas não terem dado certo, a garota humilde de grandes anseios sabia que tudo o que havia se passado não foi em vão; valeu a pena. Apesar de algumas vezes solitária e imaginativa, vivia todos os dias com o maior proveito que pudesse conseguir, e amava a muitos, amava muito.

Quando ela soube que ele estava morto e que tudo que haviam passado tinha sido em vão, que agonia. Ele está podre, faltava só enterrar. As palavras soavam sarcásticas, irônicas, frias, tristes, por mais que não passassem de brincadeirinhas na tentativa de suprir uma conversa casual.

Ela não sabia o que deveria sentir. Ser durona? Julgar? Aconselhar? A menina tentava de maneira sutil e doce - como não conseguia fazer de outra meneira - alertá-lo do suposto inferno que o esperava. E torcia para que, desta vez, ela estivesse enganada.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vermelho


(fiquei com preguiça de digitar pois tinha somente escaneado. O conto foi publicado no Jornal do Grêmio da minha escola na época, em 2007)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

para os que curtem mitologia


A Casa de Astérion, de Jorge Luís Borges



E a rainha deu à luz um filho

Que se chamou Astérion.

APOLODORO: Biblioteca, III, I



Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei ao seu devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de minha casa, mas também é verdade que suas portas (cujo número é infinito*) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas feminis nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Assim, encontrará uma casa como não há outra na face da Terra. (Mentem os que declaram que no Egito existe uma parecida). Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra história ridícula é que eu, Astérion, sou um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não há uma fechadura? Além disso, num entardecer pisei a rua; se antes da noite voltei, fiz isso pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e achatados, como a mão aberta. Já se havia posto o sol, mas o desvalido choro de uma criança e as toscas preces da grei disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, prosternava-se; alguns trepavam na estilóbata do templo dos Machados, outros juntavam pedras. Algum, creio, ocultou-se sob o mar. Não em vão foi uma rainha minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que minha modéstia o queira.

O Fato é que sou único. Não me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como o filósofo, penso que nada é comunicável pela arte da escritura. As maçantes e triviais minúcias não têm espaço em meu espírito, que está capacitado para o grande; jamais reti a diferença entre uma letra e outra. Certa impaciência generosa não consentiu que eu aprendesse a ler. Às vezes o deploro, porque as noites e os dias são longos.

Claro que não me faltam distrações. Igual ao carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra até rolar no chão, nauseado. Escondo-me à sombra de uma cisterna ou à volta de um corredor e finjo que me procuram. Existem terraços de onde me deixo cair até me ensangüentar. A qualquer hora posso fingir que estou adormecido, com os olhos fechados e a respiração poderosa. (Às vezes durmo realmente, às vezes está mudada a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de tantas brincadeiras, a que prefiro é a do outro Astérion. Finjo que vem visitar-me e que lhe mostro a casa. Com grandes reverências, digo-lhe: Agora voltamos à encruzilhada anterior ou Agora desembocamos em outro pátio ou Bem dizia eu que te agradaria o canalete ou Agora verás uma cisterna que se encheu de areia ou Já verás como o porão se bifurca. Às vezes me confundo e nos rimos agradavelmente os dois.

Não só tenho imaginado esses jogos; também tenho meditado sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar. Não há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, uma manjedoura; são quatorze [são infinitos] as manjedouras, bebedouros, pátios, cisternas. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo. Contudo, à força de se fatigar em pátios com uma cisterna e poeirentas galerias de pedra cinza, alcancei a rua e vi o templo dos Machados e o mar. Não entendi isso até que uma visão da noite me revelou que também são quatorze [são infinitos] os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, quatorze vezes, mas duas coisas há no mundo que parecem existir uma só vez: acima, o intrincado Sol; abaixo, Astérion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o Sol e a enorme casa, mas já não me recordo.

A cada nove anos entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo mal. Ouço seus passos e sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente a procurá-los. A cerimônia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensangüente as mãos. Onde caíram ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem são, mas sei que um deles profetizou, na hora de sua morte, que algum dia chegaria o meu redentor. Desde então não me dói a solidão, porque sei que vive meu redentor e no fim se levantará sobre o pó. Se meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. Oxalá que me leve a um lugar com menos galerias e menos portas. Como será meu redentor? pergunto-me. Será um touro ou um homem? Será talvez um touro com rosto de homem? Ou será como eu?

O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não havia nenhum vestígio de sangue.

– Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu –. O minotauro apenas se defendeu.



À Marta Mosquera Eastman



*O original diz catorze, mas sobram motivos para inferir que, na boca de Astérion, esse adjetivo numeral vale por infinitos. (N. do A.)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Margaridas - conto apocaliptico que escrevi pra faculdade

Acordou. Encontrava-se deitado em uma espécie de maca, branca e desconfortável. Sentia dores nas costas e um desconforto imenso ao tentar se mexer. Quando abria os olhos, só enxergava borrões e uma claridade demasiada desnecessária para aquele lugar, que não conseguia reconhecer. “Onde estou?”

O sono incontrolável tomou conta de seus pensamentos e, em poucos segundos, encontrava-se em outro lugar. Viu, então, que estava em sua casa, sua tão querida casa! As cores pareciam muito vivas e o odor das margaridas que tinha dado à sua mulher no dia anterior provocava em Carlos uma imensa sensação de alívio e prazer. Foi até a sala de estar e observou a foto que estava no porta-retrato em cima da mesa: era a foto do dia de seu casamento, há dois anos atrás. Foi então que se lembrou do grande dia! Como sua esposa estava bela de branco, e as flores que segurava pareciam tão vivas e coloridas quanto as cores das margaridas. E que saudades que sentia de sua mulher! Ao se lembrar da pele macia de seu rosto, de seu perfume suave e dos cabelos loiros que formavam cachos belíssimos, sentia como se não a tivesse visto por muitos anos.

Percebeu que alguém se aproximava sorrateiramente dele, e, quando se virou, viu que era sua mulher. Ela estava muito bem vestida, maquiada e perfumada. Abraçou-a com força e paixão, deu-lhe beijos e sussurrou “eu te amo” pelo pé do ouvido.

- Meu amor, parece que não me vê há séculos! Eu sei que tenho trabalhado muito, mas de noite estou sempre aqui para ficar com você e cuidar da Júlia. Lembra-se que diminuí minha carga horária para ficar mais tempo com vocês?

Carlos não se lembrava de muitas coisas. Não se lembrava nem como havia chegado a sua casa, onde estava antes disso e também não se lembrava da última vez que havia visto sua mulher Ana. Até aquele momento tinha também se esquecido de que tinha uma filhinha, a Júlia!

- Ana, querida, eu não sei o que aconteceu comigo. Sinto-me estranho e um pouco cansado... É muito bom estar em casa e poder revê-las! Onde está a Julinha?

- Ela está no berço no nosso quarto, dormindo feito um anjo.

- Vou subir ao quarto e me deitar.

Carlos subiu as escadas. Cada degrau que subia parecia consumir uma força que já não se encontrava mais em suas pernas. Foi quase se arrastando para o quarto, quando viu que sua filha, Júlia, estava dormindo no berço ao lado da cama do casal. Deu um beijo na testa da filha e deitou em sua cama, que parecia mais dura e desconfortável como de costume.

Subitamente, começou a sentir um desconforto muito grande. Pensamentos horrendos invadiam sua consciência, uma angústia grande tomava conta de seus sonhos. Estava agora em uma guerra de terror e tristeza. Escutava choros de criança, mulheres correndo desesperadas com seus filhos nos braços. Só havia mulheres e crianças e muito sangue ao seu redor. A rua de sua casa estava irreconhecível: só havia ruínas, fogo, explosões. A casa de Carlos, mesmo, estava em pedaços. Restavam as margaridas, tão belas e vivas como antes, e que transformavam aquela sensação angustiante em uma pequena porção de paz e tranqüilidade. Nenhuma flor havia, sequer, se desmantelado.

Um homem se destacou perante às mulheres. Carlos apressava o passo, visto que o homem se aproximava. O homem tinha, além da farda, uma máscara horrível, parecendo um demônio; em sua mão esquerda, vermelha de sangue, segurava uma espécie de adaga onde se reluziam os fortes raios de sol. Sem ao menos perceber, em uma fração de segundos, o homem estava perto de Carlos e enfiou-lhe a adaga pelas pernas. Carlos gritou.

Acordou muito assustado, levantou-se de sua cama e foi até a janela tomar um ar. Ao olhar pela janela, observou que sua filha brincava lá fora, sozinha. Pensou que tivesse passado muito tempo desde que decidira tirar a soneca, já que sua filha estava, em instantes, ao seu lado dormindo no berço.

Desceu as escadas. Sentia uma dor horrível nas pernas, que tentava ignorar. Quando chegou à sala de estar, viu sua mulher sentada ao sofá, em prantos.

- Mas o que houve meu bem?

Sua esposa não respondeu, e continuava a soluçar.

-O que foi? Onde está a Julinha?

Carlos a abraçou com força e sentiu que Ana se sentia muito triste, por razões que ele não compreendia. Ela continuava a não responder, e sequer olhava para o marido. Seus olhos cheios de lágrimas continuavam baixos, e fixavam o chão.

Carlos observou que o retrato do dia do casamento estava abaixado, e as margaridas também tinham murchado. Sua filha entrou pela porta da frente, já com uns 10 anos de idade e abraçou a mãe. Carlos não entendia o que se passava, mas tinha muitas dores nas pernas. A dor fisgou sua contração muscular e se debruçou no chão, gemendo. Implorava por ajuda, mas sua família não lhe dava atenção.

- Pois bem, doutor, ele se chama Carlos Garcia e sua casa foi atingida.

- E o resto da família, algum sobrevivente?

- Mulher e filha já receberam o atestado de óbito.

- Está certo, enfermeira. Há quanto tempo ele está assim? E as suas pernas?

- Há umas três horas. As pernas estão definhando, doutor. E a coluna foi atingida. Não sei por quanto tempo mais ele irá sobreviver.

- Mesmo não tendo grandes chances de sobrevivência, induza-o ao coma novamente. O sedativo não dará conta.

- Ok, doutor. Será feito.

Carlos não sabia de mais nada. Via um vaso de margaridas perto da cabeceira de sua cama. Sentia que sua dor insuportável permanecia, e sabia que estava sozinho. Em um segundo, lá estava em sua casa novamente... sua tão querida e bonita casa!