segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vermelho


(fiquei com preguiça de digitar pois tinha somente escaneado. O conto foi publicado no Jornal do Grêmio da minha escola na época, em 2007)

terça-feira, 5 de julho de 2011

música

sentido único que impulsiona todos os outros sentidos.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

desgaste

Me sinto feliz por mim, pelas minhas conquistas, pela minha empolgação em querer viver, pelo meu bom humor apesar das dificuldades, pela minha fé resgatada após um longo período em dormência. Me sinto feliz até mesmo pela minha universidade, que se esforça a cada dia para que a educação melhore. Me sinto feliz pela minha família e por amigos que me dão força e são meus exemplos de vida. E sinto um leve esgotamento de espírito ao ver tudo que acontece ao meu redor. As pessoas, suas tantas dificuldades e sofrimentos. Esse mundo que não pára e não nos deixa descer e pensar nas coisas. Os mil amores por aí perdidos. As relações moralmente incorretas. O trabalho pelo dinheiro, e só por ele. O estresse da vida corriqueira. O desânimo e depressão de jovens com 20 e poucos anos de classé média alta estudando numa das melhores universidades do país - e posso dizer isso porque vivo com eles todos os dias.
Não sei sei se são os tempos modernos, não sei o que é. Parece tudo um caos por fora. E uma ordem que é só de dentro - e acho que já basta, né?

terça-feira, 14 de junho de 2011

sexo

entregar seu corpo e sentir a alma do outro dentro de si.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

antes de dormir

penso em tudo, me enriqueço. sinto mil pensamentos vindo à tona, como sussurrados no ouvido e ditos com a plena sinceridade e do mais profundo sentimento. me sinto genuína, leve, verdadeira, eu. desprendida do mundo, sozinha, no escuro, comigo. não tem como errar.
eu quero o desejo, o sorriso, os olhos, cabelos, palavras, risos. como eu quero tanto te dizer tudo sem medo de quaisquer arrependimentos. queria te dizer... e dar ouvidos a toda essa minha vontade que não segue a matemática das coisas e não tem medo de se machucar. ah, mas eu faria isso se fosse antes de dormir. em que as estrelas e sonhos se tornam realidade.

(estou precisando daqueles momentos em que a vida deixa de ser um pouco realista e que temos a certeza de estarmos flutuando no ar. encarar a realidade é bom, mas pode cansar...)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

para os que curtem mitologia


A Casa de Astérion, de Jorge Luís Borges



E a rainha deu à luz um filho

Que se chamou Astérion.

APOLODORO: Biblioteca, III, I



Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei ao seu devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de minha casa, mas também é verdade que suas portas (cujo número é infinito*) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas feminis nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Assim, encontrará uma casa como não há outra na face da Terra. (Mentem os que declaram que no Egito existe uma parecida). Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra história ridícula é que eu, Astérion, sou um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não há uma fechadura? Além disso, num entardecer pisei a rua; se antes da noite voltei, fiz isso pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e achatados, como a mão aberta. Já se havia posto o sol, mas o desvalido choro de uma criança e as toscas preces da grei disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, prosternava-se; alguns trepavam na estilóbata do templo dos Machados, outros juntavam pedras. Algum, creio, ocultou-se sob o mar. Não em vão foi uma rainha minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que minha modéstia o queira.

O Fato é que sou único. Não me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como o filósofo, penso que nada é comunicável pela arte da escritura. As maçantes e triviais minúcias não têm espaço em meu espírito, que está capacitado para o grande; jamais reti a diferença entre uma letra e outra. Certa impaciência generosa não consentiu que eu aprendesse a ler. Às vezes o deploro, porque as noites e os dias são longos.

Claro que não me faltam distrações. Igual ao carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra até rolar no chão, nauseado. Escondo-me à sombra de uma cisterna ou à volta de um corredor e finjo que me procuram. Existem terraços de onde me deixo cair até me ensangüentar. A qualquer hora posso fingir que estou adormecido, com os olhos fechados e a respiração poderosa. (Às vezes durmo realmente, às vezes está mudada a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de tantas brincadeiras, a que prefiro é a do outro Astérion. Finjo que vem visitar-me e que lhe mostro a casa. Com grandes reverências, digo-lhe: Agora voltamos à encruzilhada anterior ou Agora desembocamos em outro pátio ou Bem dizia eu que te agradaria o canalete ou Agora verás uma cisterna que se encheu de areia ou Já verás como o porão se bifurca. Às vezes me confundo e nos rimos agradavelmente os dois.

Não só tenho imaginado esses jogos; também tenho meditado sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar. Não há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, uma manjedoura; são quatorze [são infinitos] as manjedouras, bebedouros, pátios, cisternas. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo. Contudo, à força de se fatigar em pátios com uma cisterna e poeirentas galerias de pedra cinza, alcancei a rua e vi o templo dos Machados e o mar. Não entendi isso até que uma visão da noite me revelou que também são quatorze [são infinitos] os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, quatorze vezes, mas duas coisas há no mundo que parecem existir uma só vez: acima, o intrincado Sol; abaixo, Astérion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o Sol e a enorme casa, mas já não me recordo.

A cada nove anos entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo mal. Ouço seus passos e sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente a procurá-los. A cerimônia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensangüente as mãos. Onde caíram ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem são, mas sei que um deles profetizou, na hora de sua morte, que algum dia chegaria o meu redentor. Desde então não me dói a solidão, porque sei que vive meu redentor e no fim se levantará sobre o pó. Se meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. Oxalá que me leve a um lugar com menos galerias e menos portas. Como será meu redentor? pergunto-me. Será um touro ou um homem? Será talvez um touro com rosto de homem? Ou será como eu?

O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não havia nenhum vestígio de sangue.

– Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu –. O minotauro apenas se defendeu.



À Marta Mosquera Eastman



*O original diz catorze, mas sobram motivos para inferir que, na boca de Astérion, esse adjetivo numeral vale por infinitos. (N. do A.)

terça-feira, 15 de março de 2011

Realidade x Ficção

por mim

“A obra de ficção nos encerra nas fronteiras de seu mundo e, de uma forma ou outra, nos faz levá-la a sério”. A partir desta sentença de Umberto Eco em Seis Passeios pelo Bosque da Ficção pretendo analisar a dicotomia Realidade e Ficção. Por que a ficção nos leva para dentro de si e se faz sempre tão sedutora? Por que muitas vezes tentamos “enxergar” a vida como uma ficção? O que poderíamos considerar uma ficção realista?

Umberto Eco, em Seis Passeios pelo Bosque da Ficção, desmembra alguns recortes de romances a fim de explicar o jogo de funcionamento da ficção. Ao comparar a ficção como um jogo “fechado”, de um mundo finito e semelhante ao nosso, o autor demonstra as divergências entre o que pode ser considerado real ou então ficcional dentro do próprio funcionamento de uma narrativa.

A ficção possuiria “sua realidade”, o que consideraríamos “real” dentro daquele mundo pequeno. Entretanto, a ficção deve ter sua coerência interna para que não “se auto-invalide”. O autor da narrativa ficcional, neste caso, “(...) não passa de uma estratégia textual que é capaz de estabelecer relações semânticas e que pede para ser imitada (...)” (ECO, 1994, p. 31). Ou seja, é a lógica e semântica textual que vai promover o sentido daquela narrativa, desvinculando o autor e suas questões biográficas e/ou pessoais do sentido que deveríamos promover (Umberto Eco, neste instante, se mostra com uma visão estruturalista de leitura e escrita).

Ao metaforizar a ficção como um Bosque em que o leitor pode traçar seu caminho em meio a muitos outros ali presentes, Eco faz a seguinte reflexão (p.83):

“Quando entramos no Bosque da ficção, temos que assinar um acordo ficcional com o autor e estar dispostos a aceitar, por exemplo, que lobo fala. (...) Imaginamos o lobo peludo e com orelhas pontudas, mais ou menos como os lobos que encontramos nos bosques de verdade, e achamos muito natural que Chapeuzinho Vermelho se comporte como uma menina e sua mãe como uma adulta preocupada e responsável. Por quê? Porque isso é o que acontece no mundo de nossa experiência, um mundo que daqui para a frente passaremos a chamar, sem muitos compromissos antológicos, de ‘mundo real’.”

É necessário que haja elementos de nossa realidade em uma ficção. Os leitores precisam saber de coisas do mundo real para presumi-lo como pano de fundo para o mundo ficcional. Eco cita que os mundos ficcionais são “parasitas” do mundo real, porém são “menores” porque delimitam a nossa competência do mundo real e nos permite que entremos num mundo fechado, finito e mais “pobre” que o nosso. Talvez seja por isso que a ficção se torne tão sedutora aos leitores. Por ser um mundo “menor” e “fechado”, ele se torna coerente e tem “sentido”. “Ler ficção significa jogar um jogo através do qual damos sentido à infinidade de coisas que aconteceram, estão acontecendo ou vão acontecer no mundo real. Ao lermos uma narrativa, fugimos da ansiedade que nos assalta quando tentamos dizer algo de verdadeiro a respeito do mundo.” (ECO, 1994, p. 93) Esta é a função “consoladora” da narrativa ficcional: “encontrar uma forma no tumulto da experiência humana” (Idem).

Ler um romance nos traz a sensação confortável de viver em mundos nos quais a visão de verdade é indiscutível, enquanto o mundo real nos parece algo mais “traiçoeiro”, “nebuloso” e de difícil compreensão. E é por esta razão que somos tentados a dar forma à vida através de esquemas narrativos; através de uma “lógica” que segue as lógicas textuais narrativas. Eis que Eco cita (p. 121):

“Qual é a moral desta história? É que os textos ficcionais prestam auxílio à nossa tacanheza metafísica. Vivemos no grande labirinto do mundo real, que é maior e mais complexo que o mundo de Chapeuzinho Vermelho. É um cujos caminhos ainda não mapeamos inteiramente e cuja estrutura total não conseguimos descrever. Na esperança de que existam regras do jogo, ao longo dos séculos a humanidade vem se perguntando se esse labirinto tem um autor ou talvez mais de um. (...) A Divindade nesse caso é algo eu precisamos descobrir ao mesmo tempo que descobrimos por que estamos no labirinto e qual é o caminho que nos cabe percorrer”

Nos mundos ficcionais, sabemos que há um autor que está por trás da mensagem ficcional dando-lhe um sentido. Por esta razão temos a necessidade de encontrar um “Autor” para a nossa realidade, para encontrarmos um sentido da vida.

Entretanto, há certas ficções consideradas mais “realistas” do que outras. Talvez por conterem “menos sentido” ou então “múltiplos sentidos”; por se tornarem um “bosque emaranhado e distorcido”, e não organizado como um jardim francês. Estas ficções se apresentariam mais próximas à nossa realidade.

De acordo com Eco, a ficção nos fascina não só pelo fato de parecer mais atrativa que a realidade, mas também por nos proporcionar a oportunidade de usarmos nosso conhecimento de mundo para reconstituir o passado. A ficção tem a mesma função dos jogos. As crianças brincam e simulam situações de adultos, aprendendo a viver. E é por meio da ficção que os adultos exercitam sua capacidade de estruturar a experiência passada e presente.

Bibliografia:

ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994