terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

corujas

Todos os dias em que eu passava pela rodovia SP 215, sentido Descalvado/Porto Ferreira, eu via uma linda corujinha, dessas buraqueiras, sentada na placa que indicava a direção de Porto. Impreterivelmente, às 6h40 da manhã, ela estava lá, admirando o nascer do sol e a vista montanhosa e verdejante. De certa forma, os dias ficavam mais aconchegantes com a presença da coruja, pois, assim como eu, ela tinha o  destino de estar no mesmo lugar e horário todos os dias. Nós pertencíamos a uma mesma lógica, e nos conectávamos.
Certo momento, minha vida mudou. Meu coração se encheu de alegria por ter esbarrado no amor e na parceria. Nesse momento, outra corujinha começou a aparecer e, juntas, elas formavam um par de corujas na placa. Ela não estava mais sozinha, estava agora acompanhada e talvez sua rotina estivesse menos solitária. Todos os dias, às 6h40, lá estavam as duas corujas sentadas olhando para o horizonte. Foram quase três meses em que, todos os dias, eu falava bom dia às corujas queridas, e meu coração também comemorava.
Até que, certo dia, minha parceria terminou. Parece ficção, eu sei, mas uma das corujas simplesmente não estava mais ali. Só havia uma, novamente. Pensei que ainda estivéssemos conectadas nisso de destino, não era possível. Admirava a corujinha que ainda permanecia firme e forte ali, todas as manhãs, talvez para proteger seu ninho, o qual eu não tinha percebido, ou simplesmente para seguir o fluxo da vida natural. E assim ela esteve.
Certo dia de agosto, a segunda corujinha reapareceu. Ela estava, dessa vez, sentada em uma placa do outro lado da rodovia. E a corujinha da placa de Porto Ferreira permanecia ali, ainda. As duas corujas se entreolhavam distantes, talvez fosse algum tipo de despedida de corujas, não sei. Foi aí que me lembrei: aquele era o dia em que ele se mudaria para Portugal. Para outro lado do mundo, além do oceano. Meu coração estremeceu, eu senti saudade, como se também tivesse me conectado a ele pelo pensamento. Acredito nisso de conexão por pensamento, que fisga os sentimentos do coração. Mais uma vez totalmente me identificava com as corujas. Estávamos mesmo conectadas. 
A partir desse dia, nunca mais vi a segunda coruja. Assim como eu, a única coruja seguia por lá todos os dias, ainda. Até que eu também parei de estar ali. Não sei se ela ainda se encontra por lá, talvez tenha voado pra longe, também. 

domingo, 16 de junho de 2024

reflexões

Às vezes a vida nos convida a sentar e a escrever. É o que decidi fazer hoje. Eu sei que a maior das lições da vida é aprendermos a estar no presente, e a aproveitar esse presente. Acho que tenho o maior dos privilégios, na verdade, que é muitas vezes ter que lidar com perdas. Assim, aprendo a me manter centrada, no presente, no instante. Que passa tão rápido. Mas que deixa tanta coisa boa. Ou não, também. Mas deixa algo. E quando esse algo se transforma em vontade de viver? De mudar? De se engrandecer? É assim que tenho me sentido. Tem momentos que o presente corrói, mas corrói também lembrar do passado, que tanto doeu. Ou que tanto foi bom, e que não existe mais. A vida sabe que eu sei, às duras e leves penas, que tudo termina (será meu plutão conjunção com ascendente escorpião?). Um dia também terminaremos. Mas o presente tem sido generoso comigo. Muito generoso. Ele termina, no presente do indicativo, mas tem algo que fica. Tem algo que vai ficar, no futuro. E tem algo que ficará, também, no pretérito perfeito. E que perfeito. Admito que, de certa forma, cansa viver tantas e tantas perdas em pouco tempo. E espero que, em algum momento, isso possa cessar pra que eu possa, enfim, viver a vida com mais leveza, pelo menos. Mas viver é bom. Obrigada, vida. Obrigada. Te amo hoje e sempre, no presente, no passado, e sei que no futuro. Porque o que eu amo já faz parte de quem eu sou.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Com COVID mas cantando

when the moon is in the seventh house 
and Jupiter aligns with Mars 
then peace will guide our planets 
and love will steer the stars

quarta-feira, 5 de julho de 2023

monstrinhos

Hoje é dia de abraçar os demônios,
Puxar uma cadeira extra
Pedir mais uma cervejinha
E dizer, gentilmente,
"Sente-se, você é bem-vindo aqui".

rio do meu coração

Na incerteza da certeza
Há uma correnteza
Que avança.

O rio, que uma vez esteve cheio de peixes
e água límpida estará
Daqui a alguns quilômetros,
Ou a algumas horas,
Mais escuro, sem vida.

Meu coração se divide em rios
Que cheios de amor,
De tristeza,
De esperança,
De memórias,
Se entrelaçam.

Se encontram,
E desaguam.
Como duas grandes correntezas.

O fluxo, contínuo
Segue toda a vida
Assim sendo, misturando as águas.
Se dividindo
Misturando
Até o fim dos tempos.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

jupiteriano

 Aqui é referente mesmo a Júpiter. Planeta do júbilo, da leveza, da prosperidade.

Você é como Júpiter. Aliás, ascendente e mercúrio em Sagitário, és filho dele e maior amante da natureza. Com a sensilidade e profundidade de um bom escorpiano. 

E eu aqui, cada dia mais encantada por tudo que você traz. Talvez vivendo ainda uma fantasia, essa mesma que Júpiter pode vir a representar. Mas o centauro, com sua flecha, aponta para horizontes limpos, de harmonia e prosperidade. Te aceito como és, te vejo como és. Dessa forma, espero construir um mundo mais bonito contigo, cheio de luz e amor. É isso. Você é meu Júpiter. Espero poder ser seu Sol.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

saudades

 vó, hoje eu senti saudades suas. como eu nunca havia sentido até então. lembrei dos tempos em que você cuidava de mim todos os dias quando eu era uma criança mimada. lembrei também do seu arroz e feijão, que eram inigualáveis, e de você rindo das besteiras que a família contava. também me lembrei de quando você me dava escondido dos meus pais notas de cinquenta reais pra eu comprar alguma coisinha que eu quisesse. lembrei de você lavando minhas roupas quando cheguei dos estados unidos sozinha. lembrei de você sempre preocupada se eu estava bem. lembrei de você sendo vó, aquela coruja, me chamando de pituquinha. hoje senti sua falta, como nunca. e a verdade é que eu busco, todos os dias, algum sinal de que você, de alguma forma, se lembra de mim. você não se lembra, me chama de menina. a memória pode ter se perdido, mas sinto que seu amor está aí. todos os dias eu recebo o presente de você sorrindo pra mim, confiando em mim pra te guiar quando você precisa de algo, me dando beijo. o amor é à prova de tudo. o amor é atemporal, não liga pra maus tempos. vó, eu te amo hoje e sempre. espero que algum dia você se lembre disso.