quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Margaridas - conto apocaliptico que escrevi pra faculdade

Acordou. Encontrava-se deitado em uma espécie de maca, branca e desconfortável. Sentia dores nas costas e um desconforto imenso ao tentar se mexer. Quando abria os olhos, só enxergava borrões e uma claridade demasiada desnecessária para aquele lugar, que não conseguia reconhecer. “Onde estou?”

O sono incontrolável tomou conta de seus pensamentos e, em poucos segundos, encontrava-se em outro lugar. Viu, então, que estava em sua casa, sua tão querida casa! As cores pareciam muito vivas e o odor das margaridas que tinha dado à sua mulher no dia anterior provocava em Carlos uma imensa sensação de alívio e prazer. Foi até a sala de estar e observou a foto que estava no porta-retrato em cima da mesa: era a foto do dia de seu casamento, há dois anos atrás. Foi então que se lembrou do grande dia! Como sua esposa estava bela de branco, e as flores que segurava pareciam tão vivas e coloridas quanto as cores das margaridas. E que saudades que sentia de sua mulher! Ao se lembrar da pele macia de seu rosto, de seu perfume suave e dos cabelos loiros que formavam cachos belíssimos, sentia como se não a tivesse visto por muitos anos.

Percebeu que alguém se aproximava sorrateiramente dele, e, quando se virou, viu que era sua mulher. Ela estava muito bem vestida, maquiada e perfumada. Abraçou-a com força e paixão, deu-lhe beijos e sussurrou “eu te amo” pelo pé do ouvido.

- Meu amor, parece que não me vê há séculos! Eu sei que tenho trabalhado muito, mas de noite estou sempre aqui para ficar com você e cuidar da Júlia. Lembra-se que diminuí minha carga horária para ficar mais tempo com vocês?

Carlos não se lembrava de muitas coisas. Não se lembrava nem como havia chegado a sua casa, onde estava antes disso e também não se lembrava da última vez que havia visto sua mulher Ana. Até aquele momento tinha também se esquecido de que tinha uma filhinha, a Júlia!

- Ana, querida, eu não sei o que aconteceu comigo. Sinto-me estranho e um pouco cansado... É muito bom estar em casa e poder revê-las! Onde está a Julinha?

- Ela está no berço no nosso quarto, dormindo feito um anjo.

- Vou subir ao quarto e me deitar.

Carlos subiu as escadas. Cada degrau que subia parecia consumir uma força que já não se encontrava mais em suas pernas. Foi quase se arrastando para o quarto, quando viu que sua filha, Júlia, estava dormindo no berço ao lado da cama do casal. Deu um beijo na testa da filha e deitou em sua cama, que parecia mais dura e desconfortável como de costume.

Subitamente, começou a sentir um desconforto muito grande. Pensamentos horrendos invadiam sua consciência, uma angústia grande tomava conta de seus sonhos. Estava agora em uma guerra de terror e tristeza. Escutava choros de criança, mulheres correndo desesperadas com seus filhos nos braços. Só havia mulheres e crianças e muito sangue ao seu redor. A rua de sua casa estava irreconhecível: só havia ruínas, fogo, explosões. A casa de Carlos, mesmo, estava em pedaços. Restavam as margaridas, tão belas e vivas como antes, e que transformavam aquela sensação angustiante em uma pequena porção de paz e tranqüilidade. Nenhuma flor havia, sequer, se desmantelado.

Um homem se destacou perante às mulheres. Carlos apressava o passo, visto que o homem se aproximava. O homem tinha, além da farda, uma máscara horrível, parecendo um demônio; em sua mão esquerda, vermelha de sangue, segurava uma espécie de adaga onde se reluziam os fortes raios de sol. Sem ao menos perceber, em uma fração de segundos, o homem estava perto de Carlos e enfiou-lhe a adaga pelas pernas. Carlos gritou.

Acordou muito assustado, levantou-se de sua cama e foi até a janela tomar um ar. Ao olhar pela janela, observou que sua filha brincava lá fora, sozinha. Pensou que tivesse passado muito tempo desde que decidira tirar a soneca, já que sua filha estava, em instantes, ao seu lado dormindo no berço.

Desceu as escadas. Sentia uma dor horrível nas pernas, que tentava ignorar. Quando chegou à sala de estar, viu sua mulher sentada ao sofá, em prantos.

- Mas o que houve meu bem?

Sua esposa não respondeu, e continuava a soluçar.

-O que foi? Onde está a Julinha?

Carlos a abraçou com força e sentiu que Ana se sentia muito triste, por razões que ele não compreendia. Ela continuava a não responder, e sequer olhava para o marido. Seus olhos cheios de lágrimas continuavam baixos, e fixavam o chão.

Carlos observou que o retrato do dia do casamento estava abaixado, e as margaridas também tinham murchado. Sua filha entrou pela porta da frente, já com uns 10 anos de idade e abraçou a mãe. Carlos não entendia o que se passava, mas tinha muitas dores nas pernas. A dor fisgou sua contração muscular e se debruçou no chão, gemendo. Implorava por ajuda, mas sua família não lhe dava atenção.

- Pois bem, doutor, ele se chama Carlos Garcia e sua casa foi atingida.

- E o resto da família, algum sobrevivente?

- Mulher e filha já receberam o atestado de óbito.

- Está certo, enfermeira. Há quanto tempo ele está assim? E as suas pernas?

- Há umas três horas. As pernas estão definhando, doutor. E a coluna foi atingida. Não sei por quanto tempo mais ele irá sobreviver.

- Mesmo não tendo grandes chances de sobrevivência, induza-o ao coma novamente. O sedativo não dará conta.

- Ok, doutor. Será feito.

Carlos não sabia de mais nada. Via um vaso de margaridas perto da cabeceira de sua cama. Sentia que sua dor insuportável permanecia, e sabia que estava sozinho. Em um segundo, lá estava em sua casa novamente... sua tão querida e bonita casa!

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